O dia 18 de
novembro ficará marcado na história da música pra sempre como sendo o do
lançamento do que foi um dos grandes discos da história do Rock Progressivo.
The Lamb Lies Down on Broadway, a Magnum
opus do Genesis completou ontem 40 anos de vida.
Em 1974 o
Rock Progressivo ainda vivia o seu apogeu, e o Genesis em particular vinha de
uma sequência de grandes discos que marcariam para sempre o estilo como Foxtrot de 1972 e Selling England by the Pound de 1973. Mas se esses discos faziam a
banda cravar o nome como um dos principais expoentes do Rock Progressivo nos
anos 70, o disco que viria a seguir ultrapassaria todos os limites do lirismo e
da teatralidade na música contemporânea. The
Lamb Lies Down on Broadway é um disco conceitual (algo comum ao estilo) que
relata a história de um jovem porto-riquenho chamado Rael que, ao mudar-se para
os Estado Unidos, mais especificamente para a cidade de Nova Iorque, se alia a
gangues de ruas juvenis e acaba caindo no mundo do crime. Rael segue essa vida
de delinquente até que sofre um acidente, a partir de então, inicia uma viagem
ao plano metafísico de seu subconsciente onde enfrentará tenebrosas criaturas
para resgatar o seu irmão John, que na verdade se trata da busca por uma parte
perdida na identidade de Rael, o seu verdadeiro eu.
Segundo
Gabriel, a ideia nasceu de forma espontânea, tendo sempre em mente escrevê-la
cima da vida de um garoto: "Apresentei várias ideias para a banda para que
fizéssemos uma espécie de exercício democrático, embora eu tivesse certeza que
eu venceria ou, ao menos, achava que teria que vencer. A ideia básica era
contar a história de um garoto, o que agradou Michael. Eu pretendia fazer uma
grande história e comecei a falar indiretamente de experiências pessoais, ainda
que muitas partes sejam indecifráveis, o que dificultou o sucesso do disco.
Rael, o personagem, seria um menino de jaqueta de couro e jeans, uma espécie de
pré-punk, mas sem aquela conotação da geração de 1976. Não havia ainda os
Ramones, por exemplo; New York Dolls sim, mas eles eram completamente
desconhecidos".
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| "Gabriel caracterizado como Rael em concerto do grupo". |
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Mas nem tudo foram flores, afinal estamos no mundo real e pessoas pensam
diferente umas das outras, era uma questão de tempo até começarem os conflitos.
"Nós
estávamos vivendo todos juntos numa casa, em Headley Grange", recorda Phil
Collins - "uma casa onde Led Zeppelin, Bad Company e Pretty Things já
haviam morado. Começamos a trabalhar em conjunto para o disco e Peter disse que
desejava escrever todas as letras, por isso, Mike e Tony ficavam atrás dele
enquanto criávamos as melodias. Sempre que sentávamos para tocar, surgia algo
maravilhoso".
Eis que os atritos
começam quando Peter recebeu um telefonema do diretor William Friedkin,
responsável pelo filme O Exorcista. Friedkin
tinha adorado a história que Peter havia escrito na contracapa do disco Genesis Live e procurava alguém para
escrever um roteiro de ficção científica, mas que não fosse do ramo. Resolveu
então convidar Peter, que aceitou o convite. Peter perguntou se a banda se
incomodava em parar por algum tempo a confecção do disco enquanto ele escrevia
o roteiro e a banda disse que sim, que não desejavam parar por nada. "Bem,
eu quero fazer o filme, então deixarei o Genesis".
A primeira reação da
banda foi "ok, temos bastante material instrumental, vá em frente",
mas logo viram que era uma loucura e que sem Gabriel a obra jamais sairia do
papel.
"Eu
sempre gostei de trabalhar com Peter e senti que o grupo precisava de toda a
energia que tivesse para terminar o projeto. Mas Peter continuava dizendo que
se a oferta fosse realmente séria ele deixaria o grupo, o que considerei um
absurdo. E ele realmente saiu um tempo para escrever o roteiro, mas não deu
muito certo e ele acabou voltando e se comprometeu que acabaria o disco antes
de fazer qualquer outra coisa. Porém, aquilo foi um sinal de que ele estava
ficando cheio daquela vida", Disse Collins.
Peter se
sentiu muito contrariado e resolveu voltar para Bath, no sudeste inglês, até porque
sua esposa estava grávida e deixou a parte de composição das melodias com o
restante da banda. Ele já havia tido um pequeno atrito com Rutherford, que
queria fazer o disco em cima do livro O
Pequeno Príncipe, o que não aconteceu. "Quanto mais você pressiona
Peter, mais ele fica no canto. Nós o puxávamos para o grupo, ele ficava vago
até que ele foi para Bath e nós ficamos com todo o trabalho. Sabíamos que não
iríamos durar muito tempo", conta o baixista.
O convite do
cineasta causou uma briga da banda com a gravadora Charisma e pouco-a-pouco o
projeto do filme foi ficando mais difícil e Peter aceitou retornar ao trabalho
após um telefonema de Michael. O vocalista disse que não queria ser pressionado
e Michael pediu apenas para que ele adiasse por uns tempos seus projetos
pessoais para se dedicar ao novo disco. Acordo fechado. Phil Collins acredita que
Peter voltou também porque Friedkin ficou muito assustado ao saber que poderia
estar rachando o grupo e pediu desculpas pelo ocorrido.
Com o vocalista de volta, todo o conceito começou a ser montado. O disco possui
uma longa história introdutória contada por um narrador. Rael após sofrer um
acidente faria uma viagem ao seu subconsciente e se confrontaria com temas como
a morte, a mitologia, a revolução sexual, a propaganda e a sociedade do
consumo.
As sessões de
gravação do disco foram extremamente tensas e os músicos se revezavam em turnos
no estúdio. Phil Collins trabalhava de madrugada no Island Studios, em Notting
Hill, enquanto o restante trabalhava pela manhã. Para piorar, Gabriel estava obcecado
pela qualidade do disco e ficava revisando as letras várias vezes, atrasando
ainda mais o projeto. Quando resolveu gravar seus vocais, os demais foram
expulsos do local. A tensão era tão gigantesca que o guitarrista Steve Hackett acabou machucando um tendão e um nervo do seu dedão ao se cortar com um copo de
vinho, o que adiou em três semanas a excursão britânica, sendo jogada para
depois da parte norte-americana. O disco ainda contou com a colaboração de
Brian Eno, que fez algumas ambientações.
No mês seguinte
após o lançamento do álbum, o Genesis iniciava sua turnê norte-americana para
divulgar o disco, que pelo tamanho acabou sendo um disco duplo.
Peter Gabriel
como de costume, encarnou o personagem Rael utilizando em boa parte dessa primeira
turnê uma jaqueta de couro e calça jeans como figurino, o que era diferente
para quem costumava usar máscaras e fantasias das mais variadas nos shows em
anos anteriores. Entretanto, ele logo começou a usar fantasias assustadoras no
palco, elevando sua condição de interpretação e de frontman da banda nos shows.
O que faria com que os demais integrantes da banda, enciumados, ficassem muito
irritados com Peter Gabriel, pois parecia ser ele a grande estrela e não o
Genesis. Claramente os demais membros ficavam escondidos ou em segundo plano
enquanto Gabriel brilhava nos palcos.
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| "Na canção "The Colony of Slippermen", Gabriel se fantasiava de um bulbo monstruoso, com órgãos genitais inflados". |
The Lamb Lies Down on Broadway foi sucesso tanto de críticas quando de vendas, apesar de ter alcançado "apenas" a 41ª primeira posição na parada norte-americana, deve-se ter em conta
de que a obra se trata de um disco duplo, conceitual, que possui 23 faixas e
tem duração total de 1h34m, ou seja, não é uma obra fácil de ser digerida. Para se ter uma ideia,
disco demorou 16 anos para conquistar o almejado Disco de Ouro, na
América, ou seja, 500 mil cópias.
Em contrapartida, o álbum rapidamente colheu seus frutos na terra natal da banda, precisamente em fevereiro de 1975 o álbum consegue a marca de disco
de ouro no Reino Unido, aonde chegou ao 10º posto na parada.
Quando a
banda começou a turnê pelo Reino Unido, Gabriel já havia resolvido deixar o
Genesis, mas só anunciou o fato em agosto do mesmo ano, após o termino da turnê,
causando choque entre os fãs, embora seus companheiros soubessem que isso não tardaria muito em acontecer, por todos os conflitos que vinha ocorrendo na banda.
Segundo as
histórias, Gabriel, estrela dos 102 shows feitos para promover o disco, na
parte final da turnê saia do palco chorando após o encerramento dos concertos, era assim noite após noite. Gabriel saia do palco com um sentimento ambíguo
de alegria e tristeza, em parte gerado pela grandeza lírica das letras que
ele mesmo escrevera, e por outro lado pelo fato de ter de deixar a banda que tanto refletiu seus
sentimentos.
Desse ponto
em diante, a história da banda nunca mais seria a mesma. Gabriel partiria para
uma bem sucedida carreira-solo, fazendo discos excepcionais, que em boa parte
refletiriam certo sentimento sombrio. Já o Genesis, apesar de lançar alguns
bons discos, nunca mais conseguiu atingir o nível musical dessa época. Mas isso
é assunto para outra história.
O fato é que The Lamb Lies Down on Broadway é um álbum
que não “apenas” será um clássico para toda a eternidade, mas tal qual um bom
vinho, dá sinais de que ficou ainda melhor com o passar dos anos. Se você que
ainda não ouviu esse disco procura por belas e intrigantes letras e arranjos lindíssimos
que soam como a música tocada pelos anjos no paraíso, então esse disco é a sua
pedida. Possui canções que viraram marca registrada da banda como a faixa
título; “In the Cage”; "Back in N.Y.C."; "Carpet Crawlers"
e “The Lamia”. No entanto, o disco realmente funciona quando escutado na
íntegra, uma vez que se trata de uma obra conceitual. Garanto que vale cada
segundo ouvindo da 1h34m de duração da obra que se divide em 23 canções que
são:
Disco 1:
1. "The
Lamb Lies Down on Broadway"
2. "Fly
on a Windshield"
3. "Broadway
Melody of 1974"
4. "Cuckoo
Cocoon"
5. "In
the Cage"
6. "The
Grand Parade of Lifeless Packaging"
7. "Back
in N.Y.C."
8. "Hairless
Heart"
9. "Counting
Out Time"
10. "The
Carpet Crawlers"
11. "The
Chamber of 32 Doors"
Disco 2:
1. "Lilywhite
Lilith"
2. "The
Waiting Room"
3. "Anyway"
4. "Here
Comes the Supernatural Anaesthetist"
5. "The
Lamia"
6. "Silent
Sorrow in Empty Boats"
7. "The Colony of Slippermen"
a) "The
Arrival"
b) "A
Visit to the Doktor"
c) "Raven"
8. "Ravine"
9. "The
Light Dies Down on Broadway"
10. "Riding
the Scree"
11. "In
the Rapids"
12. “it"
Termino essa homenagem convidando a todos a ouvirem essa maravilhosa obra do Genesis,
se você assim como eu já escutou milhares de vezes essa preciosidade, embarque
uma vez mais nessa jornada metafísica. Se você ainda não escutou o disco, sugiro
que acompanhe Rael nessa viagem, quem sabe assim como o protagonista da obra,
você não encontre uma parte perdida de seu ser, o seu verdadeiro eu.