Confesso a todos aqui que nunca dei muita atenção para as eleições burguesas, afinal de contas, são as eleições burguesas a forma mais eficiente de manutenção da democracia burguesa - Que apesar do nome é nada mais do que uma ditadura de uma classe sobre outra, como em qualquer forma de estado. Nesse caso, temos o estado burguês, o instrumento que garante a manutenção da ditadura da burguesia sobre a classe trabalhadora.
Nas eleições burguesas os partidos, quaisquer que sejam são usados como roupas por grandes grupos capitalistas, que financiam suas campanhas em troca de retornos e facilitações após a eleição do candidato "X" ou "Y". Nesse sentido (quase) nenhum dos partidos que disputam as já supracitadas eleições burguesas se diferenciam.
Porém, devemos ser conscientes que equiparar os partidos burgueses como se fossem todos farinha do mesmo saco, ignorando as demandas populares que visam atender e toda a gama do espectro político onde se encontram é de uma burrice admirável.
Foi analisando essa última questão que parei para pensar no grave momento em que o país está vivendo e no qual a América Latina se encontra. Vivemos tempos onde as forças mais conservadoras e até reacionárias da sociedade saíram das catacumbas para entrar numa guerra midiática e física contra toda e qualquer pauta que possa ser vista como minimamente progressista. No Brasil um golpe de estado parlamentar (organizado por potências estrangeiras) colocou no poder o ranço oligárquico mais viscoso, sujo, antinacional, antipopular e reacionário. A campanha midiática pró-golpe foi intensiva e essencial para que o mesmo se realizasse. E quando falamos em campanha midiática, quase que obrigatoriamente temos a classe média por trás, que se coloca numa posição onde apenas repete o discurso que escuta na mídia sem nem ao menos entender o que está dizendo, tal qual um papagaio de pirata. Compram gato por lebre, acreditam que por reproduzirem o discurso antipopular apresentado pela mídia se darão bem, afinal não fazem parte do "povão". É assim que a classe média se vê, como uma extensão da elite (sic) E por isso aposta no que considera ser um projeto de combate ao "populismo".
Eu vejo como esse fenômeno, que acontece entre a classe média, demonstra claramente como no Brasil a educação é pobre, até mesmo para a supracitada. As razões que considero para concluir isso são:
- A crença que um governo declaradamente de direita beneficiaria a classe média é um engano grotesco. Um governo de direita vai priorizar a elite oligárquica, as corporações, o dinheiro onde ele é mais concentrado. A classe média é enganada com imagens e percepções grosseiras que fazem crer no sonho de subir para a elite. Acreditar que FIESP (um dos principais expoentes do golpe) uma entidade que quer passar por cima de direitos trabalhistas em nome da "eficiência do mercado" (sic) vai realmente se importar com o que acontece com a classe média? Pois é, qualquer pessoa com um mínimo de estudo e bom senso sabe que isso é uma possibilidade ínfima, e a tendência do governo altera essas probabilidades de forma irrelevante. O que acontece é um aprofundamento das diferenças sociais, pois a elite se expande ao custo do decaimento da própria classe média. Resumindo, fica parecido com a Mega Sena: apostam os direitos de toda a população numa possibilidade ridiculamente pequena para beneficiarem apenas a si mesmos, pagam o preço caso não ganhem e continuam cometendo o mesmo erro.
- Outra questão é o envolvimento de credos e crenças para a opção de um candidato, sendo que o estado deveria ser laico. Um estado laico é justo para com todas as religiões (ou a ausência de qualquer uma delas). A direita explora essa questão pois sabe que a baixa educação do população faz com que a mesma centre suas preferências e conceitos em cima de religiões, vide o exemplo da tal "bancada evangélica". A utilização de emoções e mecanismos de defesa emocional - e não conhecimentos, experiências e lógica.
- Um outro ponto muito importante é a utilização de uma moral intangível, representada por elementos vindos do cerne de organizações burguesas, como militares, maçons, pastores evangélicos. A classe média sente a necessidade de ser representada por figuras paternalistas vindas de organizações que aos olhos da classe média são exemplos de moralidade como se fosse imaculados, que em nome de uma suposta segurança pública utilizam-se de uma retórica conservadora para atacar toda uma parcela menos privilegiada da sociedade. Não é a toa que figuras patéticas como Coronel Telhada, Major Olímpio dentre outros exemplos sejam eleitos com grande quantidades de votos para dar voz a toda uma classe.
É por tudo isso que acredito que a baixa qualidade da educação num todo fundamenta-se em um aspecto: o foco da mesma.
A classe média educa seus filhos para passarem em vestibulares e arrumarem "bons empregos" E isso tem relação com a forma que a educação está estruturada no país.
Quando o foco do estudo é a cidadania e o conhecimento, o pensamento crítico e as escolhas políticas são melhor fundamentadas pois são feitas de forma consciente. Um exemplo de como uma educação de qualidade, cidadã e que fomente o pensamento crítico é perigosa aos donos do poder (burguesia) seria o que o PSDB fez com o ensino público em São Paulo, adotando a progressão continuada, remunerando pessimamente os professores (e quase metade deles são temporários), aparelhando mal as escolas. Isso apodrece o ensino público, impossibilitando a ascensão da classe trabalhadora e a consequente derrubada das oligarquias presentes no poder, eleitas por pessoas de classe média que se consideram estudadas e conscientes, mas na verdade são tão sabidas quanto cones de trânsito. É por isso que uma das principais pautas da direita reacionária no país hoje é o famigerado projeto "Escola sem partido" Utilizado para atacar o que chamam "marxismo cultural" (sic) que é segundo eles não apenas lecionado, mas doutrinado nas escolas de todo o país. Faltou avisar a esses imbecis que os alunos saem do ensino médio sem saber o que são as classes sociais e qual o papel das classes na sociedade, sem saber o que é a mais-valia, sem saber o que é o materialismo histórico e dialético dentre outros conceitos básicos marxistas. Não é por acaso que um dos lemas das tropas fascistas espanholas durante a Guerra Civil (1936-1939) era a de "¡Muera la inteligencia!". Um exemplo mais que concreto que prova como uma educação de qualidade é perigosa a burguesia.