Estava eu de bobeira na noite de domingo,
entediado me rendi ao cubo televisivo. Parecia que a noite estaria perdida, eis
que para o deleite deste que vos escreve, ao passar alguns canais me dei conta
de que estaria para começar o primeiro filme da clássica trilogia "De
volta para o Futuro". Era um alento para uma alma que ás 21h20min de
domingo se encontrava em um completo estado de letargia e não tinha nenhuma
pretensão de tentar lutar contra ele. Afinal, se o filme já visto tantas vezes
não fosse acrescentar nada de novo em minha vida, pelo menos me garantiria boas
risadas e uma dose barata de nostalgia. Aos que não assistiram ao filme em
questão ou que com o passar dos anos já se esqueceram da trama, faço um breve
resumo:
O
protagonista Marty McFly (Michael J.Fox) é um adolescente cursando o ensino
médio, cujo sonho é o de ser um astro de rock. Marty vive no seio de uma
família de classe média baixa e sem muitas ambições na pacata cidade
de Hill Valley, Califórnia. Seu pai, George McFly, é um homem que sofre de
algum complexo que o impede de entrar em confronto com o que quer que seja
fazendo assim com que sofra constantemente os abusos de seu supervisor de trabalho Biff Tannen.
Sua mãe, Lorraine Baines McFly, de uma linda e promissora jovem a uma mulher
infeliz, acima do peso e com problemas de alcoolismo. Seus irmãos, Dave e Linda
McFly, também vivem com ele, sendo que ambos possuem um caráter muito parecido
ao de seus pais. Perseguindo seu sonho de se tornar um "rock star"
Marty e sua banda resolvem se inscrever para o teste seletivo para tocarem no
festival da escola, no qual acabam por serem rejeitados, segundo o jurado por
tocarem muito alto. Apesar do revés, a namorada de Marty, Jennifer Parker,
o encoraja a não desistir de seus objetivos e acreditar em seu futuro. No
jantar daquela noite, a matriarca Lorraine contas à família como ela e George
se apaixonaram quando seu pai (avô de Marty) o atropelou na rua. Na
madrugada do dia 25 de outubro de 1985, Marty encontra seu amigo, o cientista
Emmett "Doc" Brown (Christopher Lloyd), no Twin Pines Mall às 01h15min a
pedido do Doutor. Lá, Doc Brown revela a Marty seu mais grandioso invento, um
DeLorean DMC-12 transformado em uma máquina do tempo. Para a viagem temporal do
veículo é necessário uma fissão nuclear gerada por plutônio. Para conseguir a
substância, Doc Brown conta a Marty que teve de contatar um grupo de
nacionalistas líbios, prometendo-os que lhes faria uma bomba e eventualmente
roubando o plutônio para usar em
sua experiência temporal. O plutônio é um item obrigatório para gerar os 1,21
Gigawatt de eletricidade necessários para o funcionamento do aparato que
torna a viagem temporal possível, o "Capacitor de Fluxo". O
Doutor explica que o carro viaja para uma data programada ao atingir 88
milhas ou 140 km por hora de velocidade. Pouco após realizar sua primeira
viajem utilizando o cachorro Einstein como viajante do tempo, Doc se dá conta
de que os nacionalistas líbios o encontraram e o fuzilam fatalmente. Marty
consegue fugir dentro do DeLorean, sendo perseguido pelos líbios. Para poder
escapar, Marty acaba atingido 88 milhas por hora e ativa o capacitor de fluxo
que o transporta ao dia 5 de novembro de 1955. Ao explorar a Hill
Valley daquela década, Marty acidentalmente encontra seu pai, George, como um
adolescente que é intimidado por Biff. Quando George está prestes a ser
atropelado pelo carro do pai de Lorraine, Marty o empurra salvando-o e
recebendo o impacto em seu lugar. Como resultado, a jovem Lorraine, sua mãe,
fica apaixonada por ele e não por George. Assim Marty altera o espaço-tempo e
necessita fazer com que sua mãe se apaixone por seu pai, caso contrário Marty
terá a existência apagada da história, uma vez que seus pais não se apaixonaram
e por consequência não o geraram. É essa a trama que faz o roteiro do
filme se desenrolar.
Nesse
contexto de alteração do espaço-tempo entra uma teoria que pode anular todo o
conceito do filme. René Barjavel (24 de Janeiro de 1911 – 24 de Novembro
de 1985) foi um autor francês, jornalista e crítico, frequentemente
associado como o primeiro pensador do paradoxo na viagem do tempo. Nascido
em Nyons, uma comuna francesa na região administrativa de
Ródano-Alpes, no departamento de Drôme, é mais conhecido por ser um
autor de ficção científica. Sua obra costuma refletir sobre o declínio da
civilização devido à excessiva tecnocracia do mundo moderno e os horrores
das guerras geradas por ela. René Barjavel escreveu diversas
novelas com esses temas, como "Ravage", "Le Grand
Secret", "La Nuit des temps", e "Une rose au
paradis". Seus escritos são conhecidos pelo alto grau de poesia,
dramaticidade e questionamentos filosóficos. Alguns de seus trabalhos possuem
suas raízes no empirismo e num questionamento poético sobre a existência de Deus.
René também em sua obra mostrou-se muito interessado com a questão do meio ambiente,
principalmente sobre aquele que seria herdado pelas futuras gerações, fato que
lhe causava imensa preocupação. Contudo, existe uma obra que pode ser
considerada como o principal legado literário de René
Barjavel, "Le Voyageur imprudent" de 1943.
É justamente
nessa obra que o autor escreve uma teoria que entra em conflito com a do filme.
A teoria chamada de "Paradoxo do avô" na viagem do tempo consiste em
uma análise simples, mas extremamente coerente: Se uma pessoa viaja no
tempo rumo ao passado e mata um de seus ancestrais antes que o mesmo tenha tido
oportunidade de gerar um filho, o viajante temporal não poderia existir e assim
não teria como voltar no tempo e matar seu ancestral.
Levando
em conta essa teoria, a partir do momento que Marty salva seu pai de ser
atropelado, o que faz com que sua mãe se apaixone por ele, em nada afetaria sua
existência, uma vez que se seus pais não se apaixonassem e logo não se reproduzissem
Marty não existiria, portanto não poderia fazer a viagem temporal e alterar o
espaço-tempo.
É realmente muito curioso se pararmos para refletir o que aconteceria com Marty se o mesmo tivesse falhado em fazer seus pais se apaixonaram. Tal qual o "Paradoxo do avô", existem diversas teorias que vão da ficção à ciência contemporânea que poderiam ser aplicadas nesse caso. Se ele falhasse então ficaria preso numa repetição do mesmo evento como um viajante do tempo para toda a eternidade? Nascer, crescer, fazer uma viagem temporal, alterar o espaço-tempo, ter a existência apagada da história e reviver tudo de novo? Ou partindo do conceito de multi-universo, no qual após alterar o espaço-tempo a linha temporal sofreria um corte criando outro universo "um onde o viajante nasceu e outro onde ele mesmo acabou com sua linhagem". Podemos passar horas pensando nas possibilidades quase que infinitas de tal evento, teorias são o que não faltam, mesmo para um leigo no assunto como eu... Independente de qual teoria você escolha defender, a trilogia do "De volta para o Futuro" blockbuster cinematográfico dos anos 80 produzido por ninguém menos que Steven Spielberg será um clássico ad eternum e proporcionará diversão e risos a quem a assista. Enquanto a René Barjavel, escritor de ficção científica que possui um status de “Cult", possivelmente nunca consiga a fama internacional e o prestígio de escritores do gênero como H.G. Wells ou mesmo seu compatriota Jules Verne, mas que com certeza possui um bonito legado na ficção científica que merece ser lido não apenas pelos que apreciam o estilo, mas também por todos aqueles curiosos que se interessam pela boa literatura.

