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terça-feira, 11 de novembro de 2014

Marty McFly vs René Barjavel.

         


Estava eu de bobeira na noite de domingo, entediado me rendi ao cubo televisivo. Parecia que a noite estaria perdida, eis que para o deleite deste que vos escreve, ao passar alguns canais me dei conta de que estaria para começar o primeiro filme da clássica trilogia "De volta para o Futuro". Era um alento para uma alma que ás 21h20min de domingo se encontrava em um completo estado de letargia e não tinha nenhuma pretensão de tentar lutar contra ele. Afinal, se o filme já visto tantas vezes não fosse acrescentar nada de novo em minha vida, pelo menos me garantiria boas risadas e uma dose barata de nostalgia. Aos que não assistiram ao filme em questão ou que com o passar dos anos já se esqueceram da trama, faço um breve resumo:


O protagonista Marty McFly (Michael J.Fox) é um adolescente cursando o ensino médio, cujo sonho é o de ser um astro de rock. Marty vive no seio de uma família de classe média baixa e sem muitas ambições na pacata cidade de Hill Valley, Califórnia. Seu pai, George McFly, é um homem que sofre de algum complexo que o impede de entrar em confronto com o que quer que seja fazendo assim com que sofra constantemente os abusos de seu supervisor de trabalho Biff Tannen. Sua mãe, Lorraine Baines McFly, de uma linda e promissora jovem a uma mulher infeliz, acima do peso e com problemas de alcoolismo. Seus irmãos, Dave e Linda McFly, também vivem com ele, sendo que ambos possuem um caráter muito parecido ao de seus pais. Perseguindo seu sonho de se tornar um "rock star" Marty e sua banda resolvem se inscrever para o teste seletivo para tocarem no festival da escola, no qual acabam por serem rejeitados, segundo o jurado por tocarem muito alto. Apesar do revés, a namorada de Marty, Jennifer Parker, o encoraja a não desistir de seus objetivos e acreditar em seu futuro. No jantar daquela noite, a matriarca Lorraine contas à família como ela e George se apaixonaram quando seu pai (avô de Marty) o atropelou na rua. Na madrugada do dia 25 de outubro de 1985, Marty encontra seu amigo, o cientista Emmett "Doc" Brown (Christopher Lloyd), no Twin Pines Mall às 01h15min a pedido do Doutor. Lá, Doc Brown revela a Marty seu mais grandioso invento, um DeLorean DMC-12 transformado em uma máquina do tempo. Para a viagem temporal do veículo é necessário uma fissão nuclear gerada por plutônio. Para conseguir a substância, Doc Brown conta a Marty que teve de contatar um grupo de nacionalistas líbios, prometendo-os que lhes faria uma bomba e eventualmente roubando o plutônio para usar em sua experiência temporal. O plutônio é um item obrigatório para gerar os 1,21 Gigawatt de eletricidade necessários para o funcionamento do aparato que torna a viagem temporal possível, o "Capacitor de Fluxo". O Doutor explica que o carro viaja para uma data programada ao atingir 88 milhas ou 140 km por hora de velocidade. Pouco após realizar sua primeira viajem utilizando o cachorro Einstein como viajante do tempo, Doc se dá conta de que os nacionalistas líbios o encontraram e o fuzilam fatalmente. Marty consegue fugir dentro do DeLorean, sendo perseguido pelos líbios. Para poder escapar, Marty acaba atingido 88 milhas por hora e ativa o capacitor de fluxo que o transporta ao dia 5 de novembro de 1955. Ao explorar a Hill Valley daquela década, Marty acidentalmente encontra seu pai, George, como um adolescente que é intimidado por Biff. Quando George está prestes a ser atropelado pelo carro do pai de Lorraine, Marty o empurra salvando-o e recebendo o impacto em seu lugar. Como resultado, a jovem Lorraine, sua mãe, fica apaixonada por ele e não por George. Assim Marty altera o espaço-tempo e necessita fazer com que sua mãe se apaixone por seu pai, caso contrário Marty terá a existência apagada da história, uma vez que seus pais não se apaixonaram e por consequência não o geraram. É essa a trama que faz o roteiro do filme se desenrolar.


Nesse contexto de alteração do espaço-tempo entra uma teoria que pode anular todo o conceito do filme. René Barjavel (24 de Janeiro de 1911 – 24 de Novembro de 1985) foi um autor francês, jornalista e crítico, frequentemente associado como o primeiro pensador do paradoxo na viagem do tempo. Nascido em Nyons, uma comuna francesa na região administrativa de Ródano-Alpes, no departamento de Drôme, é mais conhecido por ser um autor de ficção científica. Sua obra costuma refletir sobre o declínio da civilização devido à excessiva tecnocracia do mundo moderno e os horrores das guerras geradas por ela. René Barjavel escreveu diversas novelas com esses temas, como "Ravage", "Le Grand Secret", "La Nuit des temps", e "Une rose au paradis". Seus escritos são conhecidos pelo alto grau de poesia, dramaticidade e questionamentos filosóficos. Alguns de seus trabalhos possuem suas raízes no empirismo e num questionamento poético sobre a existência de Deus. René também em sua obra mostrou-se muito interessado com a questão do meio ambiente, principalmente sobre aquele que seria herdado pelas futuras gerações, fato que lhe causava imensa preocupação. Contudo, existe uma obra que pode ser considerada como o principal legado literário de René Barjavel,  "Le Voyageur imprudent" de 1943.


É justamente nessa obra que o autor escreve uma teoria que entra em conflito com a do filme. A teoria chamada de "Paradoxo do avô" na viagem do tempo consiste em uma análise simples, mas extremamente coerente: Se uma pessoa viaja no tempo rumo ao passado e mata um de seus ancestrais antes que o mesmo tenha tido oportunidade de gerar um filho, o viajante temporal não poderia existir e assim não teria como voltar no tempo e matar seu ancestral.
Levando em conta essa teoria, a partir do momento que Marty salva seu pai de ser atropelado, o que faz com que sua mãe se apaixone por ele, em nada afetaria sua existência, uma vez que se seus pais não se apaixonassem e logo não se reproduzissem Marty não existiria, portanto não poderia fazer a viagem temporal e alterar o espaço-tempo.

É realmente muito curioso se pararmos para refletir o que aconteceria com Marty se o mesmo tivesse falhado em fazer seus pais se apaixonaram. Tal qual o "Paradoxo do avô", existem diversas teorias que vão da ficção à ciência contemporânea que poderiam ser aplicadas nesse caso. Se ele falhasse então ficaria preso numa repetição do mesmo evento como um viajante do tempo para toda a eternidade? Nascer, crescer, fazer uma viagem temporal, alterar o espaço-tempo, ter a existência apagada da história e reviver tudo de novo? Ou partindo do conceito de multi-universo, no qual após alterar o espaço-tempo a linha temporal sofreria um corte criando outro universo "um onde o viajante nasceu e outro onde ele mesmo acabou com sua linhagem". Podemos passar horas pensando nas possibilidades quase que infinitas de tal evento, teorias são o que não faltam, mesmo para um leigo no assunto como eu... Independente de qual teoria você escolha defender, a trilogia do "De volta para o Futuro" blockbuster cinematográfico dos anos 80 produzido por ninguém menos que Steven Spielberg será um clássico ad eternum e proporcionará diversão e risos a quem a assista. Enquanto a René Barjavel, escritor de ficção científica que possui um status de “Cult", possivelmente nunca consiga a fama internacional e o prestígio de escritores do gênero como H.G. Wells ou mesmo seu compatriota Jules Verne, mas que com certeza possui um bonito legado na ficção científica que merece ser lido não apenas pelos que apreciam o estilo, mas também por todos aqueles curiosos que se interessam pela boa literatura.