quarta-feira, 19 de novembro de 2014

40 anos de uma obra-prima.



O dia 18 de novembro ficará marcado na história da música pra sempre como sendo o do lançamento do que foi um dos grandes discos da história do Rock Progressivo.

The Lamb Lies Down on Broadway, a Magnum opus do Genesis completou ontem 40 anos de vida.
Em 1974 o Rock Progressivo ainda vivia o seu apogeu, e o Genesis em particular vinha de uma sequência de grandes discos que marcariam para sempre o estilo como Foxtrot de 1972 e Selling England by the Pound de 1973. Mas se esses discos faziam a banda cravar o nome como um dos principais expoentes do Rock Progressivo nos anos 70, o disco que viria a seguir ultrapassaria todos os limites do lirismo e da teatralidade na música contemporânea. The Lamb Lies Down on Broadway é um disco conceitual (algo comum ao estilo) que relata a história de um jovem porto-riquenho chamado Rael que, ao mudar-se para os Estado Unidos, mais especificamente para a cidade de Nova Iorque, se alia a gangues de ruas juvenis e acaba caindo no mundo do crime. Rael segue essa vida de delinquente até que sofre um acidente, a partir de então, inicia uma viagem ao plano metafísico de seu subconsciente onde enfrentará tenebrosas criaturas para resgatar o seu irmão John, que na verdade se trata da busca por uma parte perdida na identidade de Rael, o seu verdadeiro eu.

Segundo Gabriel, a ideia nasceu de forma espontânea, tendo sempre em mente escrevê-la cima da vida de um garoto: "Apresentei várias ideias para a banda para que fizéssemos uma espécie de exercício democrático, embora eu tivesse certeza que eu venceria ou, ao menos, achava que teria que vencer. A ideia básica era contar a história de um garoto, o que agradou Michael. Eu pretendia fazer uma grande história e comecei a falar indiretamente de experiências pessoais, ainda que muitas partes sejam indecifráveis, o que dificultou o sucesso do disco. Rael, o personagem, seria um menino de jaqueta de couro e jeans, uma espécie de pré-punk, mas sem aquela conotação da geração de 1976. Não havia ainda os Ramones, por exemplo; New York Dolls sim, mas eles eram completamente desconhecidos".
"Gabriel caracterizado como Rael em concerto do grupo".

Mas nem tudo foram flores, afinal estamos no mundo real e pessoas pensam diferente umas das outras, era uma questão de tempo até começarem os conflitos.

"Nós estávamos vivendo todos juntos numa casa, em Headley Grange", recorda Phil Collins - "uma casa onde Led Zeppelin, Bad Company e Pretty Things já haviam morado. Começamos a trabalhar em conjunto para o disco e Peter disse que desejava escrever todas as letras, por isso, Mike e Tony ficavam atrás dele enquanto criávamos as melodias. Sempre que sentávamos para tocar, surgia algo maravilhoso".
Eis que os atritos começam quando Peter recebeu um telefonema do diretor William Friedkin, responsável pelo filme O Exorcista. Friedkin tinha adorado a história que Peter havia escrito na contracapa do disco Genesis Live e procurava alguém para escrever um roteiro de ficção científica, mas que não fosse do ramo. Resolveu então convidar Peter, que aceitou o convite. Peter perguntou se a banda se incomodava em parar por algum tempo a confecção do disco enquanto ele escrevia o roteiro e a banda disse que sim, que não desejavam parar por nada. "Bem, eu quero fazer o filme, então deixarei o Genesis".
A primeira reação da banda foi "ok, temos bastante material instrumental, vá em frente", mas logo viram que era uma loucura e que sem Gabriel a obra jamais sairia do papel.

"Eu sempre gostei de trabalhar com Peter e senti que o grupo precisava de toda a energia que tivesse para terminar o projeto. Mas Peter continuava dizendo que se a oferta fosse realmente séria ele deixaria o grupo, o que considerei um absurdo. E ele realmente saiu um tempo para escrever o roteiro, mas não deu muito certo e ele acabou voltando e se comprometeu que acabaria o disco antes de fazer qualquer outra coisa. Porém, aquilo foi um sinal de que ele estava ficando cheio daquela vida", Disse Collins.

Peter se sentiu muito contrariado e resolveu voltar para Bath, no sudeste inglês, até porque sua esposa estava grávida e deixou a parte de composição das melodias com o restante da banda. Ele já havia tido um pequeno atrito com Rutherford, que queria fazer o disco em cima do livro O Pequeno Príncipe, o que não aconteceu. "Quanto mais você pressiona Peter, mais ele fica no canto. Nós o puxávamos para o grupo, ele ficava vago até que ele foi para Bath e nós ficamos com todo o trabalho. Sabíamos que não iríamos durar muito tempo", conta o baixista.

O convite do cineasta causou uma briga da banda com a gravadora Charisma e pouco-a-pouco o projeto do filme foi ficando mais difícil e Peter aceitou retornar ao trabalho após um telefonema de Michael. O vocalista disse que não queria ser pressionado e Michael pediu apenas para que ele adiasse por uns tempos seus projetos pessoais para se dedicar ao novo disco. Acordo fechado. Phil Collins acredita que Peter voltou também porque Friedkin ficou muito assustado ao saber que poderia estar rachando o grupo e pediu desculpas pelo ocorrido.
Com o vocalista de volta, todo o conceito começou a ser montado. O disco possui uma longa história introdutória contada por um narrador. Rael após sofrer um acidente faria uma viagem ao seu subconsciente e se confrontaria com temas como a morte, a mitologia, a revolução sexual, a propaganda e a sociedade do consumo.

As sessões de gravação do disco foram extremamente tensas e os músicos se revezavam em turnos no estúdio. Phil Collins trabalhava de madrugada no Island Studios, em Notting Hill, enquanto o restante trabalhava pela manhã. Para piorar, Gabriel estava obcecado pela qualidade do disco e ficava revisando as letras várias vezes, atrasando ainda mais o projeto. Quando resolveu gravar seus vocais, os demais foram expulsos do local. A tensão era tão gigantesca que o guitarrista Steve Hackett acabou machucando um tendão e um nervo do seu dedão ao se cortar com um copo de vinho, o que adiou em três semanas a excursão britânica, sendo jogada para depois da parte norte-americana. O disco ainda contou com a colaboração de Brian Eno, que fez algumas ambientações.


No mês seguinte após o lançamento do álbum, o Genesis iniciava sua turnê norte-americana para divulgar o disco, que pelo tamanho acabou sendo um disco duplo.
Peter Gabriel como de costume, encarnou o personagem Rael utilizando em boa parte dessa primeira turnê uma jaqueta de couro e calça jeans como figurino, o que era diferente para quem costumava usar máscaras e fantasias das mais variadas nos shows em anos anteriores. Entretanto, ele logo começou a usar fantasias assustadoras no palco, elevando sua condição de interpretação e de frontman da banda nos shows. O que faria com que os demais integrantes da banda, enciumados, ficassem muito irritados com Peter Gabriel, pois parecia ser ele a grande estrela e não o Genesis. Claramente os demais membros ficavam escondidos ou em segundo plano enquanto Gabriel brilhava nos palcos.

"Na canção "The Colony of Slippermen", Gabriel se fantasiava de um bulbo monstruoso, com órgãos genitais inflados".

The Lamb Lies Down on Broadway foi sucesso tanto de críticas quando de vendas, apesar de ter alcançado "apenas" a 41ª primeira posição na parada norte-americana, deve-se ter em conta de que a obra se trata de um disco duplo, conceitual, que possui 23 faixas e tem duração total de 1h34m, ou seja, não é uma obra fácil de ser digerida. Para se ter uma ideia,  disco demorou 16 anos para conquistar o almejado Disco de Ouro, na América, ou seja, 500 mil cópias.

Em contrapartida, o álbum rapidamente colheu seus frutos na terra natal da banda, precisamente em fevereiro de 1975 o álbum consegue a marca de disco de ouro no Reino Unido, aonde chegou ao 10º posto na parada.
Quando a banda começou a turnê pelo Reino Unido, Gabriel já havia resolvido deixar o Genesis, mas só anunciou o fato em agosto do mesmo ano, após o termino da turnê, causando choque entre os fãs, embora seus companheiros soubessem que isso não tardaria muito em acontecer, por todos os conflitos que vinha ocorrendo na banda.

Segundo as histórias, Gabriel, estrela dos 102 shows feitos para promover o disco, na parte final da turnê saia do palco chorando após o encerramento dos concertos, era assim noite após noite. Gabriel saia do palco com um sentimento ambíguo de alegria e tristeza, em parte gerado pela grandeza lírica das letras que ele mesmo escrevera, e por outro lado pelo fato de ter de deixar a banda que tanto refletiu seus sentimentos.
Desse ponto em diante, a história da banda nunca mais seria a mesma. Gabriel partiria para uma bem sucedida carreira-solo, fazendo discos excepcionais, que em boa parte refletiriam certo sentimento sombrio. Já o Genesis, apesar de lançar alguns bons discos, nunca mais conseguiu atingir o nível musical dessa época. Mas isso é assunto para outra história.

O fato é que The Lamb Lies Down on Broadway é um álbum que não “apenas” será um clássico para toda a eternidade, mas tal qual um bom vinho, dá sinais de que ficou ainda melhor com o passar dos anos. Se você que ainda não ouviu esse disco procura por belas e intrigantes letras e arranjos lindíssimos que soam como a música tocada pelos anjos no paraíso, então esse disco é a sua pedida. Possui canções que viraram marca registrada da banda como a faixa título; “In the Cage”; "Back in N.Y.C."; "Carpet Crawlers" e “The Lamia”. No entanto, o disco realmente funciona quando escutado na íntegra, uma vez que se trata de uma obra conceitual. Garanto que vale cada segundo ouvindo da 1h34m de duração da obra que se divide em 23 canções que são:

Disco 1:
1. "The Lamb Lies Down on Broadway"
2. "Fly on a Windshield"
3. "Broadway Melody of 1974" 
4. "Cuckoo Cocoon"
5. "In the Cage"
6. "The Grand Parade of Lifeless Packaging"
7. "Back in N.Y.C."
8. "Hairless Heart"
9. "Counting Out Time"
10. "The Carpet Crawlers"
11. "The Chamber of 32 Doors"

Disco 2:
1. "Lilywhite Lilith"
2. "The Waiting Room"
3. "Anyway"
4. "Here Comes the Supernatural Anaesthetist"
5.  "The Lamia"
6. "Silent Sorrow in Empty Boats"
7. "The Colony of Slippermen"
a)  "The Arrival"
b)  "A Visit to the Doktor"
c)  "Raven"
8. "Ravine"
9. "The Light Dies Down on Broadway"
10. "Riding the Scree"
11. "In the Rapids"
12. “it"


Termino essa homenagem convidando a todos a ouvirem essa maravilhosa obra do Genesis, se você assim como eu já escutou milhares de vezes essa preciosidade, embarque uma vez mais nessa jornada metafísica. Se você ainda não escutou o disco, sugiro que acompanhe Rael nessa viagem, quem sabe assim como o protagonista da obra, você não encontre uma parte perdida de seu ser, o seu verdadeiro eu.

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