sábado, 23 de janeiro de 2016

Os Brasileiros: Livro I - Teoria do Brasil.


"(...) A atribuição de uma postura progressista ao patronato moderno se deve, em alguns casos, à presença de seu corpo fiscal ou cartorial. Este, tendo como sua área natural de operação e expansão o próprio Estado, mimetiza-se e se adapta segundo o caráter do governo que exerça o poder, fazendo-se progressista, reformista, nacionalista ou reacionário, conforme estas posições lhe assegurem ou não o favorecimento de contratos de obras ou o abastecimento de órgãos estatais.

A postura política dos setores intermediários, caracterizada embora pela ambiguidade a que nos referimos, é fundamentalmente conversadora e até reacionária. Contribui para isto o caráter brutalmente desigualitário da estrutura social vigente que coloca diante de seus olhos, e até introduz em seus lares como serviçais, vastas camadas miseráveis, cujas carências contrastam com a condição relativamente privilegiada das classes médias. Contribui também a presença de setores das classes subalternas, como os operários especializados às vezes melhor remunerados, mas vistos como rudes e inferiores pela sua posição social, sua educação precária e seus hábitos de vida menos exigentes quanto a aspectos formais. Nestas circunstâncias, os setores intermédios entram em competição ativa com as classes subalternas, sobretudo com as camadas mais altas dela, cujo empenho em melhorar suas condições de vida e ascender socialmente comparece, a seus olhos, como uma ameaça às vantagens que desfrutam, porque tenderia a dissolver alguns desníveis nos padrões de consumo e nos estilos de vida, altamente apreciados pelos setores médios como suposta expressão de sua superioridade. Tudo isto introjeta neles um sentimento de rancor e amargura pronto a eclodir, tanto com respeito aos que estão acima deles como e, principalmente, contra os que estão abaixo.

As classes subalternas constituem o setor potencialmente mais dinâmico da estrutura social por sua condição de força de trabalho básica do sistema produtivo, que engloba o contigente tecnicamente mais qualificado, das empresas modernas, e o único capacitado a impor suas reivindicações através de greves. Representa, também, o principal contigente politicamente autônomo das populações urbanas, o que lhes confere influência e peso eleitoral em um regime democrático. Este dinamismo potencial - que se expressa sempre que surgem condições mínimas para isto - opondo as classes subalternas à estrutura de poder, concentra nelas todo o peso da repressão, a fim de paralisá-las como classe virtualmente capacitada a mudar a ordem vigente para substituí-la por outra que lhe seja mais favorável. Embora, teoricamente, seu horizonte de aspirações corresponda a uma postura revolucionária predisposta a transformar a sociedade, de fato, seu grau de politização a leva a reivindicar apenas uma ordem social melhor. Contribui para isto - além da dificuldade inerente a todos os proletariados para operar o trânsito de uma consciência ingênua a uma consciência crítica - sua posição de classe intersticial que tem abaixo de si o imenso bolsão dos marginalizados, vivendo em condições muito mais precárias nas quais teme cair por desclassamento.

Por tudo isso, as massas marginalizadas são, na realidade, a classe oprimida da estrutura social, embora não tenham - e dificilmente venham a construir - uma consciência de si correspondente a esta condição. Sua visão de mundo é uma mistura de arcaísmo, proveniente de antigas tradições orais hauridas do campo, e de modernidade elaborada à luz de imagens difundidas pelos modernos meios de comunicação que as atingem. Sua visão de si é a de uma pobre gente que vegeta em um mundo discricionário onde um Deus arbitrário luta contra demônios que não podem ser domados.

No caso do Brasil, cujas classes dominantes se formaram no escravismo com uma postura socialmente irresponsável com respeito às classes subalternas e, sobretudo, às oprimidas, cristalizou-se uma estrutura social cruamente desigualitária que gera enormes tensões, dificultando ao extremo a conciliação de classes. Embora os conflitos raciais sejam menores que em outras partes, a distância social que separa os ricos e remediados dos pobres e, principalmente, dos miseráveis, não podia ser maior. Não cabe aqui nenhuma instituição democrática ou dignificadora. Todos sabem que a igualdade perante a lei é uma igualdade dos pares, que são os patrões e os patrícios e, no máximo, a 'gente boa' dos setores intermédios; que ela dificilmente se aplica à subgente subalterna e jamais à não-gente marginalizada.

Por tudo isto, a preocupação fundamental das classes dominantes é a manutenção da ordem. Ontem, elas sabiam que uma revolta de escravos, que se expandisse, desencadearia ódios que fariam sangrar toda a sociedade, destruindo as bases da convivência social. Hoje elas temem que, caso as classes subalternas cheguem a expressar as próprias aspirações, se torne inevitável sua própria erradicação do comando da estrutura do poder e talvez também do papel de gestores do sistema econômico. Mais ainda, porém, elas temem uma rebilão das classes oprimidas que desataria agravos secularmente contidos, capazes de colocar em xeque toda a estrutura social.

Uma classe dominante desvairada por estes temores mortais só tem uma preocupação obsessiva que é a da ordem a qualquer custo. Ela sabe perfeitamente que as classes subalternas apenas aspiram a uma melhoria de suas condições de vida e de trabalho e de oportunidades de ascensão social para seus filhos, através da educação; e que as classes oprimidas apenas reivindicam o simples direito ao trabalho regular como assalariados. Estas singelas aspirações e reivindicações poderiam, obviamente, ser atendidas, desde que a estrutura de poder redefinisse alguma de suas diretrizes básicas, como o monopólio da terra, a espoliação estrangeira e a precedência absoluta dos interesses privados sobre o bem comum. Estas inovações só representariam perdas de riqueza, poder e privilégios para certos setores, sobretudo os mais arcaicos. O que impede, porém, a reordenação política que corresponderia aos objetivos do que seria uma 'burguesia nacional progressista' é o caráter monoliticamente solidário de toda a classe dominante. É o temor co-participado por todos os privilegiados de que, uma vez aberta a ordenação social à redefinição, eclodiria um processo revolucionário incontrolável, conducente ao socialismo.

Assim se verifica que, paradoxalmente, no plano ideológico, as classes dominantes contruíram uma consciência de classe correspondente à sua posição irredutível à ameaça virtual de uma revolução socialista. As classes dominadas, porém, estão longe de construírem sua própria consciência de classe correspondente ao desafio histórico de se fazerem os construtores de uma sociedade socialista."

RIBEIRO, Darcy. Os Brasileiros: Livro I - Teoria do Brasil. 4ª ed. Petrópolis: Editora Vozes, 1978, p. 96-99.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Sobre as ações e o tempo.



"Não há há ato ou palavra que não tenha seu eco na eternidade" - Horácio.

Imagem: Horácio em ilustração de Anton von Werner.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

A morte.




"A morte é a solução dolorosa do laço formado pela geração com voluptuosidade, é a destruição violenta do erro fundamental do nosso ser; o grande desengano."

— Arthur Schopenhauer, Em "As Dores do Mundo."
Ilustração de Peter Sain, Der Tod und Das Kind (Death and the child).


sexta-feira, 20 de novembro de 2015

O Grande Timoneiro e a questão racial.




"O opressivo sistema colonial e imperialista se consolidou com a escravização dos negros e com o comércio dos negros, e o sistema colonial e imperialista só terá fim com a completa emancipação do povo preto!" Mao Zedong, “A questão racial é uma questão de classe”.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Mata-se o espírito, vende-se o cadáver.

Foto do mítico terrão do Parque São Jorge.


O futebol morreu e os assassinos lucram vendendo o seu cadáver. No Palmeiras o tradicional Estádio Palestra Itália, também conhecido como Parque Antártica foi demolido para dar espaço a mais uma dessas tais Arenas plastificadas. Após sepultar seu estádio, uma lei foi aprovada pela Câmara de São Paulo para fazer uma suposta homenagem ao estádio demolido e assim trocaria o nome da Rua Turissú local que abrigava o antigo estádio para Rua Palestra Itália. As placas com o nome da nova rua foram inauguradas em cerimonia no dia 12/06/2015 que contou com a presença de dirigentes do Palmeiras e representantes da Câmara Municipal.  Matou-se o estádio, vendeu-se a homenagem póstuma.

O Corinthians não está querendo ficar atrás nesse jogo e deve estrear uma terceira camisa na cor laranja. A cor seria uma homenagem ao tão famoso Terrão, o campo de terra batido no qual eram feitas as peneiras do clube e que revelou figuras muito importantes para a história do Alvinegro de Parque São Jorge. A última peneira no Terrão aconteceu no dia 3/10/2008. Pouco depois o clube acabaria por mata-lo substituindo a terra por grama sintética - Não por acaso alguns meses depois seria anunciada a infame contratação daquele que foi peça fundamental na morte do futebol, aquele rato de laboratório, o primeiro protótipo moderno de jogador que alguns oportunistas midiáticos tidos como especialistas insistem em chamar de “fenômeno”.
De novo temos o mesmo caso, matou-se o Terrão e agora vendem sua homenagem póstuma.
Na verdade isso não está acontecendo apenas nesses dois casos explícitos dos rivais paulistas e sim com o futebol como um todo. Mataram o futebol e hoje o que vendem sequer pode ser chamado de homenagem póstuma. É outra coisa, outro estado de espírito. Isso que vemos hoje é outro jogo dentro e fora de campo. Com areninhas plastificadas e padronizadas no lugar de estádios, com uma legião de consumidores ocupando o lugar dos torcedores, com bailarinos e atores muuuuito bem pagos para representar os jogadores e etc...

Não há solução, o futebol moderno é na verdade o futebol de 1880 praticado hoje em dia. Um gigante retrocesso, é nada mais que a reação dos donos do poder. Assim como era em 1880, hoje o que chamam de futebol é um espetáculo para saciar o entretenimento das elites, um jogo cheio de não me toques, sem contatos, sem entrega, sem alma e ao mesmo tempo sem refinamento técnico. É claro que é preciso sempre ter em conta que os parâmetros de época são muito distintos. Pelos idos do século XIX e começo do século XX os jogadores usavam materiais de baixíssima qualidade, roupas de algodão que pesavam muito (sobretudo quando chovia), bolas de capotão duríssimas e que acumulavam terra e água. Campos que para o padrão estético fresco de hoje em dia mais seria assemelhado a um lamaçal. E é claro, todas as ações dos jogadores eram feitas no intuito de aprimorar o jogo, não pura e simplesmente ações de marketing bem planejadas por CEO’s e demais pessoas que dão rotação ao corporativismo que tomou conta do esporte.

Ou começamos a lutar como a massa fez pela segunda década do século XX no Brasil, buscando fundar os clubes que representariam a classe operária no esporte e mais a frente penetrando até mesmo os ditos clubes das elites ou então boicotamos de vez esse simulacro que é vendido engarrafado com o rótulo de futebol. Ou lutemos para reconstruir de volta o futebol ou paramos de brincar que as coisas não estão bem mais que o jogo ainda respira por aparelhos.


Fútbol o muerte!

domingo, 15 de março de 2015

Morte aos lacaios do imperialismo.


Como dizia um trapo da Gloriosa hinchada de San Lorenzo: La dignidad no se compra en un supermercado.